Vamos iniciar um novo momento da coluna Pachamama contando um pouco da história de vida de uma mulher da terra, ela fez da arte uma bandeira de luta e de conexão com a sua ancestralidade. A frase popularizada por Jurema Werneck, fundadora do grupo Criola, “nossos passos vêm de longe” foi pensada para ressaltar a força, a história e a ancestralidade das mulheres negras. A autora reconhece a sabedoria, a criatividade, o trabalho e a resiliência das mulheres negras que vieram antes, construindo caminhos para as gerações futuras (Wernek, 2010). É neste espírito que buscamos dialogar neste texto, entendendo que a protagonista segue os passos das que vieram antes e faz deles uma jornada pela arte.
Maria Helena Costa Duarte nasceu em 1971 no município de Canguçu, no Rio Grande do Sul. Em 1997, casou-se com Zelo, homem negro, trabalhador da terra, juntos vivem até hoje e são conhecidos pela produção de alimentos orgânicos na cidade de Morro Redondo, no Rio Grande do Sul. O casal integra a agricultura familiar e, graças a ela, criaram os seu filho e duas filhas e possibilitaram que ambos tivessem acesso ao estudo universitário.
Canguçu é um município do estado do Rio Grande do Sul conhecido como Capital Nacional da Agricultura Familiar por seu grande número de minifúndios, possui cerca de 14 mil propriedades rurais, com uma população de aproximadamente 56.370 mil habitantes em uma área de 3.526 Km². Por sua característica, tipicamente campeira, a cidade abriga algumas histórias de feiras de trocas de sementes crioulas e arte que vem da terra (Bento, 2007). O Morro Redondo fica ao lado e guarda as mesmas características.
Maria Helena nos contou que o artesanato apareceu em sua vida em um momento no qual ela estava deprimida e sem forças para prosseguir. Nesta ocasião, ela recebeu a visita de Karen da EMATER, que viu um balaio trançado de fibra vegetal na mesa – era a mãe dela que havia criado -, dona Maria Geneci, então com 80 anos. O encantamento de Karen foi instantâneo, além disso, ela indicou um curso que estava com inscrições abertas sobre a feitura artesanal com as fibras vegetais.
Aquela arte vinha da sua bisavó – o avô paterno era indígena, da etnia Guarani, e a avó era quilombola, preta retinta, ela ressaltou para lembrar que a anciã era do grupo que ficou conhecido como “negro mina,” denominação dada aos escravizados. Vitor Costa faleceu com 81, em 2024, o avô deixou as marcas da cultura indígena impressa em suas memórias e histórias. Ela cresceu vivenciando as feiras de troca de sementes crioulas e reverberando a produção do feijão dos negros. Sua matéria prima é a fibra taboa e a fibra de tiririca. O ponto usado nos trabalhos remete à história dos africanos que aqui chegaram e trouxeram a sua cultura.
Diante do desafio de Karen, ela foi realizar o curso na cidade de São Lourenço, durante duas semanas. Zelo ficou cuidando dos filhos e deu apoio a sua nova jornada que estava começando. Graças a este inicio nos estudos sobre a sua prática, ela integrou o projeto “Artesanato de fibra RS”. O projeto visou “promover a autonomia e a valorização das mulheres artesãs; dar visibilidade aos grupos minoritários: indígenas, mulheres, negros, pessoas com deficiência (PCDs) e idosos; resgatar a cultura do artesanato de fibra vegetal e integrar design e gestão para promover o artesanato” (Artesanato de fibra RS, s/d).
O projeto proporcionou a realização de oficinas em cinco cidades gaúchas: Caxias do Sul, Três Coroas, Canguçu, Viamão e São Leopoldo, no qual participaram 73 artesãs, dentre elas, Maria Helena. Além das oficinas, houveram mentorias online intencionando o aperfeiçoamento dos produtos feitos de fibra vegetal e, ao final, foi realizada a exposição: “Trançar a vida: entre saberes, fibras vegetais e tempo” no CIC de Caxias do Sul, entre os dias 17 de julho à 14 de setembro de 2025.
A fibra vegetal, herança negra e indígena, movimentou a sua vida de uma forma impensável. Em agosto de 2025 Maria Helena foi capa da @revistadonna de @gzhdigital. Do cultivo à criação é o título da matéria que apresentou uma imagem de capa de uma mulher negra alegre e orgulhosa ao ver o reconhecimento de um trabalho ancestral. Diz a matéria: “mulheres artesãs na maioria das vezes inviabilizadas, ganhando protagonismo, como deve ser!” (Cunha, 2025). A reportagem aborda o projeto @artesanatodefibrars, que reuniu mais de setenta artesãs que participaram do protejo, dentre elas, a artesã @mariahelenacostaduarte_1971.
Referências
ARTESANATO DE FIBRA RS. A força e a fibra de quem faz. s/d. Disponível em: https://artesanatodefibrars.com.br/?fbclid=PAZXh0bgNhZW0CMTEAAact0XpOpFQ0brxIByMys-JxRQg-ChgitDOvpo0KrpYoN4rSUxqqFtowaEctAw_aem_qpNk6i0FZxKTxxDg-N3bdQ. Acesso em: 10 de out. 2025.
BENTO, Cláudio Moreira. Canguçu: reencontro com a história. Barra Mansa, Rio de Janeiro: Academia de História, 2007.
CUNHA, Giordana. Saberes trançados. Revista Donna. Ago 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DM24uCcRt9G/?igsh=Y2Y1ZTE0aXNtMXkz . Acesso em: 10 de out. 2025.
WERNECK, Jurema. Nossos passos vêm de longe! Movimentos de mulheres negras e estratégias políticas contra o sexismo e o racismo. Revista da ABPN. v. 1 n. 1, p. 7 – 17, mar-jun 2010. Disponível em: https://abpnrevista.org.br/site/article/view/303. Acesso em: 10 de out. 2025.
